Corinthians: Preto no Branco


Quando o impossível aconteceu….
março 18, 2008, 9:16 am
Filed under: Uncategorized

Por Larissa

Decidi escrever hoje sobre algo que até o momento, passados três meses e dezesseis dias, eu jamais havia conseguido expressar. O rebaixamento do Corinthians para a Série B do Campeonato Brasileiro. Ou seria, como disse Washington Olivetto, a Série A que foi rebaixada?

Enfim, acredito estar agora mais ciente para narrar a minha vivência naquele domingo, na distante Porto Alegre. Ciente, embora nunca conformada com a situação e nem poderia me conformar, nenhum alvinegro pode. O Corinthians teve sua história e seu nome jogados à lama, por dirigentes corruptos, facínoras e sem o menor sentido de corinthianismo. Gente que jamais poderia ter se apossado do clube do povo.

Como boa sofredora, parti para Porto Alegre defender meu alvinegro do coração. Não poderia ir, mas por outro lado, como assistir a decisão dramática por qualquer meio de comunicação? Não dava. Eu precisava estar lá. Sentia que era como obrigação. Talvez se fosse para ver o time campeão, nem tivesse ido, mas naquelas últimas penosas semanas o Corinthians estava cada vez mais forte dentro de mim. E na última hora, não tive dúvidas, não pensei em nada, não avisei ninguém, pois já tinham me aconselhado a não ir, tamanha era a minha ansiedade, deixei tudo pra trás e fui. Confiante. Acredito que em poucos momentos na minha vida, estive tão confiante e certa sobre algo: o Corinthians era “incaível”. E iríamos provar isso.

Chegando ao estádio Olímpico, a Fiel em peso, crente de que o fim do sofrimento era uma questão de tempo e eu a cada segundo mais certa sobre isso. O jogo demorou a começar, dezessete minutos de atraso. Aquilo não me parecia bom sinal, superstições de corinthiana. Rezei.

A partida teve início e também o sofrimento, um minuto de jogo, gol do Grêmio, que só vi mais tarde pela televisão, pois quando a bola passou perto da área corinthiana não consegui mais olhar, mãos defronte ao rosto e o grito da torcida adversária. Temi, por pouco tempo, mas fui logo embalada pelos gritos da fiel torcida que cantava: “eu nunca vou te abandonar, porque eu te amo!”.

O empate foi como lavar a alma. Era a certeza de que a vitória estava a caminho. A cada chance de gol, sentia um misto de desespero e esperança. E vez por outra se via alguém com um rádio de pilhas, de ouvidos atentos aos resultados do outro jogo que poderia decidir o nosso futuro.

O esperado gol não acontecia e o tempo passava, mas sem diminuir a minha fé, afinal, o Corinthians jamais cairia. Perdi completamente a noção do tempo, os gritos da torcida alvinegra eram cada vez mais fortes e eu gritava, cantava, a sensação era de que quão mais alto eu cantasse, maiores seriam as chances daquele gol salvador acontecer.

Às vezes, como tenho por hábito desde o primeiro jogo que fui assistir no estádio, tiro os olhos do campo e fico apreciando a torcida. Foi numa dessas que olhei para trás e vi um corinthiano chorando, olhei para o lado e nos braços de outro que cantava alto, o cronômetro, lembro perfeitamente da imagem do relógio que marcava o tempo do jogo: quarenta e quatro minutos do segundo tempo, um a um. Estremeci. E o que seria o bendito gol, não saía.

Apito final, o impossível aconteceu. O Corinthians estava rebaixado. Arrancado da elite do futebol nacional. Lugar conquistado com muita luta, dedicação e vontade, quando saído da várzea, o Timão enfrentou todos os preconceitos e venceu. Lugar que foi alcançado e é do Corinthians por direito. Direito este, que lhe foi retirado, usurpado, por pessoas da mais baixa índole, do pior caráter. Pessoas que se infiltraram no time do povo e lhe furtaram a ideologia, os princípios, os preceitos.

Foi o momento mais triste de toda a minha vida, sem dúvidas. Um massacre coletivo. Sucumbi. Fui amparada por algum amigo ao lado e ao retomar a consciência só conseguia desmentir a realidade. Devo ter repetido pelo menos vinte vezes seguidas que era mentira. Por todo lado aonde se olhasse, o que se via eram lágrimas, olhos incrédulos, decepção, tristeza, agonia, desamparo, desespero, raiva. Chorei muito e ainda não consigo descrever o momento sem fazê-lo. Fui interrompida pelo hino alvinegro, entoado por vozes trêmulas em meio a lágrimas, repetidas vezes. Vozes que calaram a ironia da torcida adversária, que tripudiava sobre a derrota do povo. Cantei, embora quase sem voz, em coro com a massa corinthiana desolada.

Lembro de sentir muita dor, dor física também, causada possivelmente pelo desgaste emocional, havia dormido pouco, na estrada. Comido mal e estado muito ansiosa durante todo o fim de semana. Sentia a dor no coração alvinegro partido. Senti tristeza, senti mágoa, abandono, ressentimento, estranheza, melancolia e desgosto, estive preocupada com os amigos que se encontravam ali comigo, pensei no meu pai, corinthiano roxo. Experimentei um pouco de cada sensação e sentimento. Mas um deles, não fez parte, em nenhum momento da trágica ocasião: ódio. E foi como eu li dias depois em algum lugar, que já nem lembro: “Corinthians: dia dois de dezembro poderia ter sido o dia em que te odiei, mas foi o dia em que mais te amei” E isso resumiu tudo o que experimentei no dia em que o gigante não caiu, deitou-se. Afinal, o Corinthians é incaível.


6 Comentários so far
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Da orgulho ler o seu texto, me arrepiou… Me identifiquei do começo ao fim… Parabéns!

Larissa: É o sentimento corinthiano! Obrigada! =)

Comentário por Marcelo

Mocinha…

O que dizer diante de tamanha habilidade com as palavras e tão completa descrição de sentimentos e sensações?

Eu ainda não tive coragem, nem vontade, de por no papel ou na tela de um monitor, o que aconteceu comigo naquele fatídico 02 de Dezembro.
Mas ao ler seu relato, me lembrei de muita coisa que eu senti, que eu falei, que vi e ouvi naquele domingo.
Até aquele dia, eu só tinha chorado após um jogo de futebol, quando o Brasil perdeu para a Itália na copa do mundo de 1982. Mas quando o árbitro decretou fim de jogo naquele 02/12, eu deixei cair todas as lágrimas acumuladas em meus 38 anos de vida.
No dia seguinte ainda arrumei forças para confortar os amigos Corinthianos e para confrontar os “não Corinthianos” com a seguinte frase:
“É preferível ver o Corinthians na última das divisões, do que viver em um mundo sem Corinthians.”

Um beijo Larissa e
PARABÉNS pelo seu
CORINTHIANISMO.

Larissa: Lindo o seu comentário Tony. Obrigada. Beijos.

Comentário por Tony

Larissa,

É um texto que remete a sensações opostas de tristeza e esperança, entretanto é sem dúvida o melhor texto que li sobre este momento em que vivemos.

Lembra daquela história de que: “O Corinthians é o time do povo e é o povo que vai fazer este time”? Pois é, acho que nos últimos anos esse povo não quis mais fazer o time e aceitou passivamente o time que era feito por “meia dúzia” de dirigentes.

Lembro-me que por muito menos agrediram o Edilson após uma Libertadores em que ele perdeu com o resto do grupo. O que fizeram nossa heróica torcida contra o autor da página mais negra de nossa história preta e branca? Assitiram atônitos e passivos cada capítulo de corrupção, superfaturamento e negociatas.

Hoje vou ao Morumbi frequentemente e fico feliz ao ver que as arquibancadas azuis e vermelhas estão sempre mais cheias do que as laranjas. Sinto que as pessoas que torcem para o Corinthians e não para torcidas retornam ao estádio.

Ver mulheres, famílias, gente de bem no estádio e pessoas com o amor que você demonstrou em seu texto de volta aos braços da equipe me devolve a certeza de que essa fase ruim é apenas uma fase.

E com suas lágrimas, nosso amor, e compromisso com este time, tenho certeza, o Corinthians caiu naquele 2 de dezembro, mas está salvo.

Vamos refazer este time…

Nos vemos mais vezes neste mesmo blog que já está em meus favoritos.

Grande abraço,
Surian

Larissa: Perfeito! Obrigada pelo carinho. Beijo!

Comentário por Alexandre Surian

Amiga desde do dia 02/12/2007 tenho uma frase pra meus adversarios

” Digam a eles que o Gavião não estar morto , mais sim ferido ”

Larissa: É levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima! =)

Comentário por Diogo

Larissa! Muito bonito seu texto, me fez relembrar o sentimento daquele dia. Mais me anima para empurrar esse time até o seu devivo lugar, coisa que a FIEL irá fazer.

Até mais, bejão!
e como disse o Tony, PARABÉNS pelo seu CORINTHIANISMO!

Larissa: Corinthians, nós nunca vamos te abandonar! Obrigada, beijo.

Comentário por Renan

Parabéns Larissa!
Sensacional texto!!

Resume perfeitamente o sentimento dos Corintianos naquele fatídico dia!

“Tira dos olhos do povo uma lágrima da humilhação.
Junta a galera de novo num choro feliz da emoção.
Briga, sacode a poeira, levanta a bandeira tribo soberana;
Mais que brasileira és corintiana,
Tu és a mais bonita das nações”

Larissa: Obrigada pelo carinho e atenção.

Comentário por Helton Augusto




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